Por que vale a leitura:

- Entenda como grupos violentos exploram a busca dos jovens por pertencimento e reconhecimento na internet.
- Conheça caminhos para a escola acolher estudantes e atuar com a rede de proteção.
- Descubra recursos para trabalhar segurança digital e orientar o uso ético de habilidades tecnológicas.

Uma pessoa que passa horas jogando com um adolescente pode deixar de ser percebida como uma desconhecida. Aos poucos, entre partidas, trocas de mensagens e interações frequentes, vai se formando uma sensação de proximidade parecida com a que se cria com colegas de escola, vizinhos ou pessoas encontradas regularmente em atividades do dia a dia. 

Mesmo sem encontros presenciais, esse vínculo pode transmitir confiança. A aproximação pode ocorrer enquanto o adolescente está no quarto ou na sala de casa, espaços tradicionalmente vistos pelas famílias como seguros e tranquilos. Por isso, a orientação “não fale com estranhos”, frequentemente dada por adultos, pode ser insuficiente para proteger crianças e adolescentes de situações de aliciamento online.

A reflexão da psicóloga Evelise Carvalho, especialista em comportamento antissocial online e pesquisadora de radicalização e extremismo, ajuda a compreender a discussão recorrente nos painéis do segundo dia do 11º Simpósio Crianças e Adolescentes na Internet, promovido entre os dias 29 e 30 de outubro pelo NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR) e pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação): como identificar situações em que a busca por amizade, pertencimento e reconhecimento é explorada por criminosos para envolver adolescentes em práticas violentas?

No painel “Discutindo a radicalização dos discursos e o impacto para crianças e adolescentes”, a perspectiva da psicologia se somou às experiências de Sofia Schurig (pesquisadora da SaferNet Brasil), Fabiana Vasconcelos (do Instituto DimiCuida) e da delegada Lisandrea Colabuono, que coordena na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo um núcleo de monitoramento voltado à investigação de grupos envolvidos em estupro virtual, cyberbullying, incitação ao suicídio e outras práticas nocivas na rede. Em pauta, estiveram a circulação de conteúdos violentos, as relações construídas em comunidades de jogos e a articulação entre escolas e a rede de proteção.

Já o painel “Adolescentes e crimes online: um olhar além da tela”, moderado por Miriam von Zuben (especialista em conscientização e educação digital no NIC.br), reuniu Lorena Borges, docente e pesquisadora de violência digital, e Marcelo Silva, perito na Diretoria de Combate a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal. Os debatedores abordaram as motivações dos jovens, a exploração de suas habilidades por terceiros e as oportunidades de atuação ética no campo da cibersegurança.

Quando o pertencimento passa pela violência

No painel sobre radicalização, Sofia Schurig explicou que os grupos criminosos nem sempre se organizam em torno de uma ideologia política ou religiosa definida. Em muitos casos, os vínculos são criados em ambientes digitais onde a violência aparece como brincadeira, piada ou forma de chamar atenção. Nesses espaços, jovens que se sentem sozinhos ou vulneráveis encontram acolhimento, identidade e um senso de pertencimento.

“O preço desse pertencimento é a desumanização do outro completa”, afirmou.

Nesse processo, a busca por reconhecimento caminha lado a lado com a normalização da crueldade. Memes, piadas e discursos preconceituosos (misóginos e racistas) são usados para mascarar a violência sob a forma de brincadeira, tornando as agressões aceitáveis e diminuindo a resistência dos jovens a atos violentos.

Fabiana Vasconcelos apresentou o caminho documentado pelo Instituto DimiCuida para a entrada de adolescentes nesses ambientes. Em geral, o primeiro contato ocorre por meio de uma oferta aparentemente inofensiva publicada em redes abertas. A partir daí, o jovem é convidado, por comentários ou mensagens, a acessar links que o conduzem a grupos privados. Nesses espaços mais restritos, a violência, a pressão e as exigências tendem a se intensificar.

Fabiana apresentou a construção de um observatório para automatizar buscas por comportamentos de risco. A proposta é utilizar o que for identificado tanto para apoiar denúncias quanto para desenvolver ações educativas.

“A ideia não é só buscar e denunciar, mas também olhar para o que a gente está encontrando ali e desenvolver estratégias de prevenção e metodologias de enfrentamento.”

Papel da escola

A escola pode ajudar os estudantes a reconhecer como discursos de ódio, humilhações e desafios violentos são apresentados como brincadeira em alguns ambientes digitais. Conversas sobre convivência, respeito e pertencimento ajudam os jovens a identificar situações de manipulação e pressão de grupo antes que elas se agravem.

Jovem de perfil, com a mão próxima à boca, diante de um monitor que exibe um jogo, com teclado e computador iluminados em vermelho.
A busca por pertencimento em comunidades online pode ser explorada por grupos violentos; escuta e orientação ajudam a prevenir o aliciamento de jovens. Crédito: Orhan Pergel/pexels

Conhecer os jogos e os vínculos dos estudantes

Evelise Carvalho destacou que aliciadores também se aproximam em espaços de amizade e acolhimento, como as comunidades de jogos online. Nos chats por voz ou texto, os interesses em comum e o tempo prolongado de interação podem acelerar a construção de vínculos de confiança e facilitar abordagens abusivas.

“Os grupos extremistas se aproximam como parceiros de jogo, amigos de jogo, e não necessariamente com essa cara de extremista”, explicou.

Evelise reconheceu que as comunidades de jogos podem ser espaços importantes de convivência. Nelas, adolescentes encontram pessoas com interesses semelhantes e constroem relações que têm significado em suas vidas. Desqualificar esses vínculos pode dificultar a aproximação dos adultos e a compreensão do que acontece nesses ambientes.

Por isso, a psicóloga recomendou conhecer as atividades dos jovens sem menosprezar suas experiências. “Se aproximar, principalmente no mundo dos games, com curiosidade e não com controle.”

Papel da escola

Em vez de tratar os jogos online apenas como um problema, a escola pode utilizá-los como ponto de partida para o diálogo. Conhecer os interesses dos estudantes facilita a identificação de situações de risco e fortalece a confiança necessária para que eles relatem experiências de assédio, discriminação ou aliciamento vividas nesses ambientes.

A prevenção envolve uma rede de apoio

A delegada Lisandrea relatou que o núcleo de monitoramento que coordena em São Paulo foi estabelecido após a onda de ataques a escolas em 2023. Segundo ela, as investigações revelaram conexões entre ameaças, aliciamento, violência sexual e grupos online.

Lisandrea destacou que a violência geralmente não começa com ameaças explícitas, mas com processos graduais de aproximação e construção de vínculo. “A violência não começa por violência, a violência começa por afeto”, afirmou. Em muitos casos, crianças e adolescentes são atraídos por pessoas que oferecem atenção, acolhimento e amizade antes de iniciar chantagens, humilhações ou práticas de exploração.

As investigações também mostraram que a divisão entre vítima e autor nem sempre é clara. Jovens que foram aliciados ou sofreram violência podem acabar reproduzindo essas mesmas práticas e atraindo novas vítimas para os grupos.

Para ela, o enfrentamento desse problema depende de uma atuação articulada entre educação, saúde, assistência social, sistema de Justiça e segurança pública. “Quando chega para a segurança pública, eu digo sempre que é o fim da linha”, afirmou.

Papel da escola

Como está mais próxima do cotidiano dos estudantes, a escola tem condições de perceber mudanças de comportamento antes que situações de violência cheguem ao estágio mais grave. Alterações bruscas de humor, isolamento, queda de rendimento, mudanças no modo de vestir ou na forma de se relacionar podem ser sinais de sofrimento que justificam a mobilização da rede de proteção.

Habilidades tecnológicas precisam de orientação ética

Ao abrir a conversa, Miriam observou que durante muitos anos adolescentes foram vistos principalmente como vítimas da internet. Hoje, porém, surgem cada vez mais casos de jovens produzindo deepfakes (tecnologia que utiliza inteligência artificial para criar ou alterar imagens, áudios e vídeos de forma realista), aplicando golpes, invadindo sistemas, criando perfis falsos ou participando de ataques digitais.

Segundo Lorena Borges, muitos adolescentes chegam à universidade já dominando técnicas de invasão e exploração de sistemas aprendidas em fóruns online e comunidades da internet. Para a especialista, há uma preocupação crescente de que esses jovens tenham acesso precoce a ferramentas robustas sem receber, na mesma velocidade, orientação sobre responsabilidade e limites éticos. “A técnica está vindo primeiro, antes da ética”, afirmou.

Ela ressaltou que o interesse por tecnologia e pela cultura hacker não é um problema em si. A preocupação está na forma como essas habilidades são direcionadas. Além da curiosidade técnica, muitos jovens buscam reconhecimento e pertencimento em comunidades digitais, o que pode aumentar sua vulnerabilidade ao recrutamento por grupos que incentivam práticas ilegais.

Papel da escola

Entre as possibilidades, Lorena apresentou competições supervisionadas, laboratórios e projetos com escolas. Também recomendou que educadores procurem universidades para conhecer as iniciativas disponíveis. Esses espaços podem reunir aprendizagem, reconhecimento e perspectivas profissionais em cibersegurança.

Quando habilidades digitais são exploradas por terceiros

A partir de investigações da Polícia Federal, Marcelo descreveu casos reais envolvendo jovens autores de crimes digitais. Com mais de duas décadas de atuação na área, ele relatou que muitos casos começam em ambientes de jogos online, fóruns tecnológicos ou grupos de amizade. “O que parece uma brincadeira pode ter consequências reais”, afirmou.

Marcelo também relatou casos em que terceiros exploravam as habilidades dos jovens e em que familiares só tomavam conhecimento dessas atividades com a chegada da polícia. O perito destacou a importância de os responsáveis acompanharem o que os adolescentes fazem na internet e prestarem atenção a eventuais ganhos financeiros associados a essas práticas.

Lorena acrescentou que ferramentas prontas reduzem o conhecimento técnico necessário para realizar determinadas ações. Se o uso de scripts, conjuntos de instruções previamente preparados, já permitia executar ataques sem dominar todas as etapas do processo, os agentes de inteligência artificial ampliam ainda mais as possibilidades de automatização.

“Agora não é mais script, agora é um agente autônomo de inteligência artificial. Então o estrago é maior”, disse.

Papel da escola

A escola pode apresentar aos estudantes caminhos para aplicar seus conhecimentos tecnológicos em atividades que beneficiem outras pessoas. Projetos de cibersegurança, por exemplo, permitem discutir autorização para testar sistemas, proteção de dados e consequências de uma invasão, aproximando a formação ética de situações do mundo real.

Para aprofundar: especial Escola Livre de Ódio

Como o extremismo se propaga na internet e por que atrai adolescentes? O especial Escola Livre de Ódio, do Porvir, reúne análises de especialistas, experiências de escolas públicas e recursos pedagógicos para compreender esses processos e enfrentar discursos de ódio. Entre os caminhos apresentados estão a educação midiática, a gestão democrática e a valorização da diversidade.

Acesse o especial e conheça orientações e experiências para apoiar o trabalho com sua comunidade escolar.

Recursos para trabalhar segurança digital na escola

Como orientar estudantes a reconhecer riscos na internet e buscar ajuda? O painel “Boas Conexões: habilidades digitais e cibersegurança” apresentou materiais e propostas para aproximar o tema do cotidiano escolar.

  • Material didático para apoiar atividades e formação
    Natália Couto (FGV Direito Rio) apresentou a Coletânea de Materiais Educativos em Cibersegurança, disponível no site do GSI (Gabinete de Segurança Institucional). O catálogo reúne 192 conteúdos educativos para apoiar professores e gestores em ações de segurança digital.
    Acesse a coletânea de materiais educativos.
  • Teatro para conversar sobre violência online
    Isadora Moreira (Anatel) apresentou a peça Vida de Influencer, encenada pela Companhia da Ilusão. Disponível no canal oficial da agência, o espetáculo aborda privacidade, cyberbullying e perseguição online, servindo de recurso pedagógico para discutir segurança digital com os estudantes.