Webinário debate escolas resilientes e a criação planos de contingência, infraestrutura e apoio socioemocional para proteger redes públicas frente a desastres
por Ana Luísa D'Maschio
19 de agosto de 2026
Na clássica fábula infantil, enquanto a cigarra canta despreocupada, a formiga trabalha preventivamente para estruturar seu abrigo e estocar alimentos antes que o inverno chegue. Essa metáfora foi o ponto de partida de Carolina Campos, diretora-executiva do Vozes da Educação, ao convocar gestores e educadores brasileiros à reflexão durante o webinário “Educação Super El Niño: a escola diante do clima extremo, caminhos para se preparar e responder”.
Promovido pelo Todos Pela Educação em parceria com a B3 Social, o Instituto Unibanco e o Vozes da Educação, o encontro online realizado nesta terça-feira (18), antecede uma formação aberta e gratuita no YouTube, agendada para 9 de setembro.
Com a previsão de um El Niño severo e o aumento da frequência de eventos climáticos extremos, a preparação das redes de ensino para agir antes, durante e depois das emergências tornou-se uma prioridade operacional. A garantia do direito à aprendizagem e a proteção das comunidades escolares não podem ficar em segundo plano até que a água suba ou a seca interrompa as atividades.
A mediadora do encontro, Luana Smeets, gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação, reforçou a gravidade do cenário ao lembrar que os impactos já são uma realidade concreta: “Estamos falando sobre um problema que não acontecerá daqui a dez ou vinte dias. Os impactos já são vividos hoje, nas rotinas das redes e de muitas escolas.”
Luana destacou ainda que as consequências vão muito além do calendário escolar: “Há impactos emocionais para toda aquela comunidade escolar que tem que lidar com perdas concretas e materiais ao mesmo tempo que mantém de pé a escola e a rotina acontecendo.”
Extremos no cotidiano
Para ser considerada resiliente, a escola precisa se estruturar sobre três pilares: infraestrutura adequada, currículo adaptável para discutir emergências climáticas e apoio socioemocional à comunidade escolar frente aos desastres.
No entanto, para além dos grandes desastres que ocupam o noticiário, o cotidiano da educação pública é afetado por impactos silenciosos, porém frequentes.
A tragédia causada pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul serviu como um doloroso alerta. O secretário de educação de Porto Alegre e presidente do Consec (Conselho Nacional de Secretários de Educação das Capitais), Leonardo Pascoal, relembrou a magnitude da calamidade que atingiu diretamente 33 escolas na capital gaúcha, muitas das quais ficaram sob dois a três metros de água, com perda quase total de infraestrutura.
Contudo, Leonardo destacou que o maior desafio está na oscilação diária do clima: “O que mais me preocupa são os eventos de menor intensidade, mas que ocorrem com maior frequência. No Rio Grande do Sul, se a família não manda a criança à escola quando faz muito calor, nem quando faz muito frio, nem quando chove, essa criança vai pra escola em torno de 50 dias letivos no ano. Nosso maior desafio cotidiano é assegurar a frequência escolar em meio a situações com bastante recorrência.”
Os fenômenos climáticos acentuam as desigualdades educacionais: “Via de regra, as regiões que acabam sendo mais atingidas, mais impactadas por eventos dessa natureza são justamente as regiões mais pobres, mais vulneráveis.”, disse Leonardo. Como resposta, Porto Alegre estrutura um plano de contingência baseado em alertas rápidos, mapeamento de riscos específicos por escola e logística de alimentação.Como parte dessas iniciativas, 87 instituições da capital gaúcha estão desenvolvendo um plano de ação próprio. O passo a passo está disponível no Guia de Implementação Planos de Contingência Escolares para Eventos Climáticos.
A ciência por trás da emergência climática
A fundamentação científica para esse senso de urgência foi apresentada pela professora e pesquisadora em educação e desastres da UFABC (Universidade Federal do ABC), Patrícia Matsu. Ao mencionar que o triênio de 2023 a 2025 registrou as maiores temperaturas da história, superando o limite de 1,5°C do Acordo de Paris, a especialista enfatizou que os desastres socioambientais não podem ser encarados como eventos fatais e incontroláveis.
Em sua explicação sobre o El Niño, Patrícia esclareceu que o fenômeno ocorre quando há um aquecimento sustentado de no mínimo 0,5°C nas águas do Pacífico Equatorial por três meses consecutivos. A expressão “Super El Niño”, ainda que não seja uma classificação científica formal, funciona como um alerta para a gravidade dos riscos.
“Os desastres socioambientais não são naturais nem castigo divino. Eles são uma construção social, resultado da combinação de um fenômeno natural com a falta de políticas públicas e as desigualdades sociais”, afirmou Patrícia. A pesquisadora apontou que a crise atinge de forma desproporcional os grupos mais vulneráveis, como jovens pretos, periféricos e pessoas com deficiência.
Para as redes de ensino, a questão não é “se” um evento extremo vai acontecer, mas “quando”. Como caminhos práticos, a pesquisadora orienta a busca por parcerias com a Defesa Civil e a capacitação de equipes. Cursos gratuitos são oferecidos pelo Cemaden Educação e pela Escola EVG (Escola Virtual de Governo), plataforma da Enap (Escola Nacional de Administração Pública). A especialista reforça ainda a importância de valorizar os saberes comunitários por meio dos Nupdecs (Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil) de cada região.
Três perguntas essenciais para a gestão pública
Carolina Campos explicou que as emergências afetam a educação em três eixos (senso de rotina, danos materiais e perda de aprendizagem) e exigem respostas estruturadas em quatro frentes: logística, acolhimento, pedagógico e comunicação.
Para avaliar o nível de prontidão das redes de ensino, Carolina apresentou três perguntas que todo gestor público precisa responder imediatamente:
- “Se um temporal caísse hoje, sua rede saberia indicar se as escolas devem abrir ou não?”
Exige mapeamento prévio de riscos de infraestrutura e articulação direta com a Defesa Civil para fechamentos preventivos.
- “Se o seu território vivenciasse uma crise amanhã, quem na sua rede saberia o que fazer nas primeiras 24 horas?”
Demanda protocolos claros de acolhimento e o domínio de técnicas de Primeiros Socorros Psicológicos no ambiente escolar.
- “Caso a sua rede tivesse perdido algumas escolas e precisasse realocar os estudantes em outros prédios, como vocês fariam para evitar a perda de aprendizagem?”
Requer planos de reorganização pedagógica e currículos priorizados.
“Quando as emergências climáticas batem à nossa porta, conversamos com muitas pessoas, mas deixamos a escola de fora”, provocou Carolina. Embora a escola seja a primeira frente de apoio da comunidade em desastres, utilizá-las como abrigo improvisado suspende o calendário de aulas por semanas ou meses. Por isso, a especialista propõe que, no período de preparação (de agora até outubro), as redes planejem com antecedência junto à assistência social e à Defesa Civil espaços alternativos de acolhimento da população.

Gestão em meio às crises
Representando o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) , a secretária de Educação do Rio Grande do Sul, Raquel Teixeira, falou sobre a complexidade de gerir redes em momentos de exceção.
Para ela, a maior lição das recentes crises climáticas é a urgência de institucionalizar a prevenção, guiada pelo lema adotado em sua rede: “Um tempo para jamais esquecer, um futuro para sempre lembrar”. É preciso que a gestão e as redes sigam alertas, ela recomenda. “Tivemos sinais em 2023, mas fomos pegos de surpresa em 2024. Em 2025, tivemos eventos climáticos praticamente todos os meses, e em 2026 está ainda pior. Por isso, a educação tem que estar no centro das decisões”.
Raquel também relembrou o “apagão de dados” de 2024, quando o transbordamento do Lago Guaíba inundou o centro de dados da Procergs (Companhia de Processamento de Dados do Estado). O desligamento preventivo dos servidores por cerca de 20 dias deixou a Secretaria de Educação sem acesso a históricos, diários de classe e cadastros.
“Na pandemia, os alunos não estavam na escola, mas eu sabia onde encontrá-los e as orientações eram as mesmas para toda a rede. Na enchente, os impactos são diversos e afetam diferentes regiões, diferentes escolas, de formas diferentes. Perdemos documentos de estudantes que, ao se transferir, não tinham documentos para levar”, explicou. A secretaria precisou acionar o Ministério Público para que as escolas aceitassem alunos sem documentação, evitando a evasão escolar.
A gestora reforçou que a implementação prática do novo conceito de escola resiliente exige infraestrutura adaptada, redesenho curricular focado em competências cognitivas e socioemocionais, além de mecanismos de descentralização financeira. Este último pilar já ocorre via programa estadual Agiliza, que simplifica o repasse de verbas emergenciais para as unidades atingidas.
Para além dessas frentes, Raquel destacou a articulação da educação aos órgãos de segurança e gerenciamento de crises: “Hoje, a secretaria da educação faz parte do Conselho Estadual da Defesa Civil e do Gabinete Integrado de Gerenciamento de Desastres, tendo um nível de integração real na governança e na gestão”, comentou.
Mobilização intersetorial
A resposta à crise exige articulação entre diferentes esferas da administração pública. Representando o MEC (Ministério da Educação), Renata Penalva, diretora de programas na Secretaria Executiva, explicou enfatizou que o órgão trata as emergências climáticas e fenômenos como o El Niño sob o guarda-chuva conceitual da”educação em contextos de emergência e crise”, aplicando a mesma governança construída para o combate à violência extrema nas escolas.
“As emergências climáticas não são para a gente um tema à parte. Elas são a porta de entrada para a gente estruturar capacidade permanente de prevenção, preparação, resposta e recuperação”, explicou Renata.
Ela destacou a Resolução nº 3 do CNE (Conselho Nacional de Educação), que assegura a continuidade do processo educativo em situações de calamidade, e a meta do PNE (Plano Nacional de Educação) de garantir que todas as redes desenvolvam planos de prevenção e adaptação até o fim da década. Na prática, o MEC atua pelo suporte financeiro do PDDE (Programa Dinheiro Direto na Escola, usado para manutenção e pequenos reparos, do PAR (Plano de Ações Articuladas), destinado à compra de equipamentos e recomposição de mobiliário e pela distribuição de guias de recomposição de aprendizagem.
Representando os municípios, o presidente da Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação), Luiz Miguel Garcia, ressaltou que a escola cumpre papel assistencial crucial junto à Defesa Civil, mas precisa olhar para suas próprias práticas: “Precisamos repensar a educação ambiental e a forma como cuidamos do nosso próprio espaço, transformando as escolas em áreas verdes onde tiver espaços Não dá para usar os efeitos extremos como justificativa para trancar o aluno.”
Léo Arno Richter, auditor do TCE-RS (Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul) e representante da Atricon (Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil) pontuou que os órgãos de controle estão orientados a monitorar a execução da Política Nacional de Educação Ambiental e do Plano Nacional de Educação. Ele lembrou que o desafio não pode sobrecarregar apenas os gestores da educação: “Existe a necessidade de lidar com a intersetorialidade e a transversalidade. Tem que ter um plano que envolva muito mais do que simplesmente a responsabilidade sobre um gestor de educação isoladamente.”
Inspirações a seguir
Carolina Campos trouxe recomendações práticas baseadas em experiências internacionais que já adotaram a postura “formiga”. Ela citou o Peru, que desenvolveu estratégias específicas para reduzir os impactos do El Niño e evitar a suspensão de aulas; o Equador, que destinou mais de um milhão de dólares para a resiliência física de suas escolas; e o Zimbábue, que ampliou preventivamente a alimentação escolar para conter o impacto da seca e das alterações climáticas na segurança alimentar dos estudantes.
No contexto brasileiro, Carolina alertou que a boa vontade não basta diante de crises de tamanha magnitude: “A boa ação, às vezes, sombreia a boa técnica”. A especialista defende a urgência de capacitar os educadores em metodologias estruturadas, como os PSP (Primeiros Socorros Psicológicos), para lidar com o estresse pós-traumático de forma profissional dentro do ambiente escolar. Afinal, como sintetizou, “é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança, mas a gente também precisa de uma aldeia inteira para ajudar a escola”.






















































