Projeto “Descentralizando o acervo”, do Museu Inhotim, convida professores a compreender o potencial educativo dos acervos de arte no Brasil
por Ruam Oliveira

29 de junho de 2026
No alto de um morro, uma construção circular de vidro e aço chama atenção pela transparência. Ao entrar nesse pavilhão, o visitante encontra, no centro da estrutura, um poço de 202 metros de profundidade equipado com um conjunto de microfones. Os aparelhos reverberam os múltiplos sons que acontecem naquele exato momento, tanto embaixo da terra quanto na superfície, quando carrinhos de golfe transitam próximos ao local.
O nome da obra é “
Sonic Pavilion”, do artista norte-americano
Doug Aitken, uma das obras a céu aberto do Inhotim, o maior museu a céu aberto do mundo e um dos principais em acervo de arte contemporânea da América Latina, e representa uma das principais propostas do museu: conectar a arte ao território.
Inscreva-se no canal do Porvir no WhatsApp para receber nossas novidadesLocalizado em Brumadinho (MG), seus 140 hectares (em termos de comparação, o Vaticano, na Itália, possui 44 hectares) são ocupados com exuberantes jardins e instalações que se integram ao espaço de maneira contínua. Os jardins são o museu e o museu são os jardins.

Foto: João KehlSonic Pavilion, obra de Doug Aitken no Inhotim, apresenta um poço de 202 metros que capta sons subterrâneos e da superfície.
São mais de 1000 espécies de plantas de diferentes continentes que dividem espaço e dialogam com 19 galerias, sendo 12 delas permanentes — dedicadas a artistas — e 7 temporárias, com exposições coletivas ou monográficas, além de obras comissionadas. Em seus espaços expositivos, o museu conta com mais de 900 trabalhos de 50 artistas representando mais de 18 países.
Além de estrangeiros vindos de diversas partes do mundo, grupos escolares também circulam pelo local debatendo questões muito presentes na atualidade: pertencimento, ancestralidade, memória, construção de futuros.
Foi para acompanhar uma imersão pedagógica com professores que o Porvir esteve no museu entre os dias 19 e 20 de junho de 2026. Os educadores e educadoras integram a 14ª edição do “
Descentralizando o Acesso”, um dos programas de educação do museu focado em formar professores para compreender como os acervos são fonte de estímulo para diferentes formas de aprender, ensinar e produzir conhecimento sobre os mais variados assuntos.
Sob o tema “Aprender com os acervos: coleções contemporâneas e perguntas para o presente”, que marca os 20 anos do Inhotim, esta é a primeira vez que o programa assume um caráter nacional, com ações que integram outras regiões do país, na fase
de cursos online. A imersão pedagógica in loco, contudo, ainda é restrita a educadores de Minas Gerais.

Crédito: Brendon CamposProfessores participam de imersão pedagógica do projeto “Descentralizando o Acervo”
AnteriorPróximoO percurso formativo reúne diferentes etapas: um curso de extensão online, com 300 docentes; uma imersão pedagógica, com 100 participantes; visitas educativas com as turmas; e a “Residência Pedagógica”, experiência de escrita de relato de prática destinada a 10 participantes da imersão.
Questão de tempo
O “Descentralizando”, também conhecido apenas como DES, é o segundo projeto mais longevo do setor de educação do museu. Desenvolvido em parceria com a FAE (Faculdade de Educação) da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a iniciativa acontece desde 2007, um ano após a abertura do museu para visitação. Em sua gênese, a iniciativa visava atrair escolas localizadas em cidades vizinhas a Brumadinho, e é daí que vem a ideia de descentralizar.
João Paulo Andrade, gerente de Educação Continuada do Inhotim, relembra que à época havia algumas limitações em termos de estrutura e conectividade, o que dificultava a expansão para outros estados e regiões.
O modelo do programa consistia em uma pré-visita feita pelos
professores ao museu, momento em que eles ficariam familiarizados com o acervo, seguida de um movimento inverso de visita da equipe do Inhotim às escolas.
A partir de 2023, coincidindo com a chegada de uma nova diretoria, o programa também sofreu uma reformulação, passando a convidar especialistas e artistas expoentes para os momentos de formação.
Para João, a estratégia anterior refletia o pensamento de arte-educação que estava mais focado em trazer pessoas para o museu. “A arte contemporânea, naquela época, era vista como um campo de conhecimento muito hermético, com um vocabulário muito específico e próprio, e os educativos tinham que traduzir. Porque, sem essa tradução, os públicos não se sentiriam pertencentes ou parte daquele universo”, pontua.

Crédito: Brendon Campos / InhotimProfessores participam de imersão pedagógica do projeto “Descentralizando o Acervo”
AnteriorPróximoA sensibilização dos olhares e o contato com artistas contemporâneos eram o carro chefe das conversas com professores, mas na nova metodologia a “mera tradução não é o objetivo, destaca o gerente. O que está proposto é alinhar arte contemporânea com temas da atualidade é uma das propostas centrais.
A arte e o hoje
Ressoando a celebração dos 20 anos
da lei 10.639, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas, a edição de 2023 teve como temática “Artes e pedagogias antirracistas”.
“O DES é um projeto com história no Inhotim, reconhecido por muitos educadores como laboratório, um lugar de experimentação e de pesquisa. Entretanto, nos últimos anos, algo mudou: passamos de uma educação centrada nas obras de arte para uma educação centrada na pergunta e nos problemas contemporâneos, mediados pelas obras”, explica Gleyce Kelly Heitor, diretora de educação e território na instituição, em prefácio da publicação “Como professoras e professores criam?”.
O livro traz as atividades de 2023 e 2024 e, além de artigos e entrevistas de membros da formação, conta com os relatos de 10 professores que participaram do projeto.

Crédito: Brendon Campos / InhotimA professora Monica Soares observa obras na Galeria Claudia Andujar, refletindo sobre saberes indígenas e práticas antirracistas na educação.
Em 2024, os professores trabalharam o tema “O que é criar”, na intenção de desvincular a ideia de que criação é algo restrito apenas a quem já faz parte do mundo das artes.
“Sabemos, principalmente olhando de dentro, que o campo da educação também está o tempo todo construindo conhecimento sobre as coleções de museus, tanto para fazer programação quanto para refletir sobre ela e avaliar os impactos que ela tem sobre os públicos”, diz João Paulo.
Arte, antirracismo e professores como autores
Parada em frente a uma fotografia, tomando notas do texto fixado na parede, estava Monica Ribeiro da Silva Soares. Professora dos anos iniciais do ensino fundamental na Escola Estadual Doutor José do Patrocínio da Silva Pontes, que fica em Belo Horizonte (MG), ela se encantava com os saberes indígenas ali representados. O texto que lia colocava crianças e idosos no mesmo patamar de importância, algo que julgou ser de muito valor e bastante diferente de como ocorre nas culturas ocidentais.
O que a trouxe para o projeto foi justamente o interesse por debater as questões antirracistas. “A faculdade aborda por alto [o tema], mas não entra nas questões a fundo mesmo, referentes às leis, aos direitos e à inclusão de todas as pessoas”, disse.
Monica é uma mulher negra de estatura média, com cabelos cinza volumosos. O relato de experiência anterior no descentralizando faz parte do livro que traz textos dos professores que participaram do programa em 2023-2024. Olhando para o repórter do Porvir, ela pergunta: “Você sabe qual foi o meu, né?”. Para quem não viu o livro ou nem ao menos folheou o índice, fica difícil dar uma resposta. Mesmo que esperasse uma devolutiva, ela logo destacou: “É o texto sobre o cabelo crespo!”.
Com o título “Ah, sim! O crespo”, a educadora partiu de sua experiência pessoal para traçar um projeto de valorização e autoaceitação com sua turma.
“Como eu sou uma pessoa de cabelos crespos, vivi muito isso na pele. E eu vejo ainda hoje que a gente tem práticas racistas na escola, algumas vezes até partindo do docente para o seu aluno”, explica. No texto, ela viu a possibilidade de narrar sua experiência. “Pude escrever sobre o que passei como criança, como é ter um cabelo crespo e, às vezes, ter que usar água para penteá-lo, ou só as mãos por não ter os acessórios corretos. As pessoas te julgam sem saber da sua história.”

Crédito: Brendon Campos / InhotimObra do artista Dalton Paula no Inhotim, destacando narrativas negras e ampliando debates sobre raça, pertencimento e memória.
Atualmente, há diversas instalações no museu que dialogam com questões como raça, racismo e pertencimento. Uma das principais é do artista contemporâneo
Dalton Paula, que já teve obras expostas no MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), na Bienal de Arte de São Paulo, no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque), entre outros.
A professora Monica festeja o reconhecimento da arte produzida por pessoas negras e indígenas: “Esses artistas eram considerados como uma ‘cultura inferior’ pelo colonialismo, mas nada teria acontecido no Brasil sem a participação deles. É importante trazê-los para a história”.
A arte nas brincadeiras
O professor Hamilton Gonçalves Barbosa dá aulas de educação física para o 4º ano na Escola Municipal Deputado Jorge Ferraz, em Contagem (MG). Adepto da
Aprendizagem Baseada em Projetos, depois de desenvolver um mapa afetivo de praças próximas à escola junto com sua turma, ele está pronto para desenvolver uma nova atividade, desta vez focado em museus.
“Como a arte se liga com sua prática?”, pergunta o repórter do Porvir. Com turmas menores, a educação física aparece também por meio de jogos e brincadeiras e, no caso do professor Hamilton, na relação com os territórios. “Não tem como fazer esse diálogo sem falar de arte. Ela é libertadora”, diz.
“A partir da arte nós vivemos e nos tornamos sujeitos culturais. É isso que nos torna humanos e faz com que a gente se mobilize, tanto na questão do território quanto do conhecimento em si. É um diálogo. É uma coisa só, não consigo separar”.
Em outro projeto, Hamilton apresentou aos seus estudantes a
obra de Ivan Cruz, artista plástico carioca que dedica grande parte de sua produção artística a representar brincadeiras infantis.

Crédito: Brendon Campos / InhotimEducadores exploram o acervo do Inhotim, investigando como arte contemporânea pode dialogar com temas atuais e práticas pedagógicas.
A aproximação do artista com as escolas não fica restrita a isso. Recentemente, Ivan pintou aproximadamente 100 metros do muro da Escola Municipal de Unamar, que fica em Cabo Frio (RJ) e segue registrando sua arte em outros espaços públicos.
O professor Hamilton incentiva as crianças a produzirem obras semelhantes, que remetem às brincadeiras retratadas por Ivan Cruz. E até mesmo aquelas que ele ainda não colocou em suas telas. “Os estudantes se inspiram na obra dele para imaginar: ‘Como o Ivan faria o quadro dessa brincadeira?’ Então vira quadro, vira arte e entra no portfólio de Educação Física”, afirma.
É arte para todo mundo?
Mais do que um exercício de maneiras de ver, visitas ao museu provocam nos estudantes diferentes inquietações e curiosidades. Para os alunos que Hamilton trouxe ao Inhotim, uma das reações iniciais é reconhecer (ou não) determinada obra como arte. “Não estou generalizando, mas, de forma geral, os estudantes que eu trouxe nesses anos questionam se aquilo é arte. E eu acho isso interessantíssimo.”
Para o educador, só questionar a própria arte já vale como um movimento em favor dela, principalmente quando se trata de arte contemporânea. Para ele, em muitos casos, trata-se mais de quem observa do que do objeto observado em si.

Crédito: Brendon Campos / Inhotimisitantes observam obras de Paulo Nazareth em uma galeria do Inhotim: uma pausa para reflexão sobre como a arte contemporânea provoca questionamentos e amplia percepções.
“Quando estou diante de uma
obra do Paulo Nazareth, por exemplo, eu penso para além do Paulo Nazareth. Ele me provoca para outros pensamentos. Acredito que acontece isso com os estudantes também, tanto crianças quanto jovens. Eles questionam essa arte, e esse questionamento vira o início da conversa sobre as várias artes”, relata o docente.
Retorno para a escola
O que os professores levam em suas bagagens quando retornam para a sala de aula depois de uma visita a um museu?
Para os professores ouvidos pelo Porvir, as conversas seguem ao longo do ano. Ao voltar para a sala, Hamilton avalia que os estudantes percebem que ele não é o único detentor do conhecimento e espera que se apropriem do conhecimento que ele compartilha nesse retorno.
Quando volta para a escola, ele diz: “O saber que eu tive, eu vou compartilhar com vocês. Vocês não precisam seguir esse conhecimento, mas saber que ele existe”.
Ao reencontrar as artes produzidas por seus estudantes, Monica demora um pouco mais nelas. É preciso considerar questões além do desenho diante de si, como a história de cada aluno ou o lugar de onde vieram. “Às vezes temos a mania de julgar só o que estamos vendo, sem levar em consideração o que levou aquela criança a fazer determinada arte”, diz a professora.
Neste novo retorno, inspirada pela obra da fotógrafa suíça, naturalizada brasileira,
Claudia Andujar, a educadora planeja debater o universo feminino e a valorização de artistas mulheres. Ela olha para o crescente índice de violência de gênero no país, na intenção de conscientizar seus alunos, sobretudo os meninos. “Talvez a arte seja um meio de a gente começar a trabalhar isso e mudar alguns resultados. A arte e a cultura têm esse poder, o de mudar a sociedade”.

Crédito: Brendon Campos / InhotimAmbiente de transição no Inhotim registra momento de contemplação dos visitantes.
Ressoando algumas ideias de Paulo Freire, patrono da educação brasileira, o professor Hamilton afirma que se o educador pernambucano pudesse acessar a imersão do Inhotim, faria muitos elogios, sobretudo quando se pensa em educar para a liberdade. Do ponto de vista do educador, contudo, Freire também faria algumas críticas:
“O Inhotim ainda é um lugar elitizado. O Inhotim ainda é um lugar que tem cercas. O Inhotim ainda tem um monte de ‘ainda’. Mas, em vez de ‘ainda’, também é um lugar que convida os professores a dialogar, a estar, a estender esse convite aos alunos”, ressalta. “É uma maneira de superar o ensino rígido, encaixotado, para pensar em uma aprendizagem para a liberdade, para o futuro, para a formação cidadã e para o exercício político.”