28 julho 2026

Financiamento educacional e futuro digital impulsionam a urgência da BNCC Computação



O prazo final para implementação é 2026 e o alinhamento dos currículos às diretrizes digitais já está diretamente ligado ao financiamento educacional. Estados e municípios precisam acelerar o processo para garantir recursos e preparar os alunos para um futuro cada vez mais tecnológico

por Ruam Oliveira 24 de julho de 2026


O ano letivo de 2026 marca o prazo limite para que as redes de ensino brasileiras, públicas e privadas, incorporem o Complemento da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) destinado à computação. Homologado em 2022, o documento estabelece diretrizes para a inclusão de competências e habilidades digitais nos currículos das escolas.

Quatro anos após a publicação, estados e municípios ainda enfrentam desafios para colocá-lo na rotina escolar. Essas dificuldades podem ter origem em questões orçamentárias, de infraestrutura ou também de formação docente.

 
Mas o que é a BNCC Computação?

O novo documento amplia a Base Nacional Comum Curricular, incluindo a educação digital em todas as etapas de ensino a partir de três eixos: Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital.
O que significa cada um deles:

Pensamento computacional: diz respeito às habilidades de compreender, analisar, definir, modelar, resolver, comparar e automatizar problemas e suas soluções de maneira metódica e sistemática. Os estudantes desenvolvem a capacidade de criar e adaptar algoritmos. Essa dimensão está diretamente ligada ao pensamento criativo e crítico.

Mundo digital: envolve a aprendizagem sobre os artefatos digitais, que podem ser físicos — como computadores, celulares e tablets — ou virtuais, como redes sociais, internet e nuvens de dados. Nesse eixo, os estudantes devem compreender aspectos como armazenamento, proteção de dados, representação, processamento, distribuição e segurança nos ambientes digitais.

Cultura digital: reúne aprendizagens voltadas à participação consciente e democrática por meio das tecnologias digitais. Isso significa compreender os impactos das tecnologias na sociedade e desenvolver uma atitude crítica, ética e responsável diante das mídias, das tecnologias e dos conteúdos digitais. Também envolve adquirir fluência no uso dessas ferramentas para propor soluções e realizar manifestações culturais contextualizadas e críticas.
Da inclusão digital ao letramento em tecnologia

Quase 30 anos após a criação do Proinfo (Programa Nacional de Informática na Educação), a intenção agora é ir além da tecnologia. Ou melhor, tratá-la a partir de diferentes perspectivas. Iniciado em 1997, após a privatização do sistema de telecomunicações, o Proinfo foi responsável por dar um primeiro passo para inclusão digital e a chegada de internet nas escolas.

Com o avanço da cobertura de internet e de políticas para a educação digital, o cenário é mais favorável. Existem atualmente 102.839 escolas com parâmetros de qualidade adequados, mostra o Indicador Escolas Conectadas. De acordo com o Diagnóstico da Conectividade na Educação, do Nic.br , são 63,7% de escolas urbanas e 36,3% de escolas rurais com conexão à internet.

Ainda assim, as desigualdades persistem. O país ainda tem dificuldade em infraestrutura, De acordo com a nota técnica “Estratégia Nacional de Escolas Conectadas: avanços e desafios”, desenvolvida pela Coalizão Tec Educação, entre 2023 e 2025 houve um aumento de 30% para 39% no número de escolas com quantidade adequada de dispositivos tecnológicos.

Entretanto, a chegada da BNCC Computação evidencia que não é só a falta de equipamentos que impacta a implementação. Um outro complicador se avizinha, relacionado à pouca familiaridade dos professores com o tema.

“Foram instalados laboratórios em praticamente todas as escolas, porém a discussão ficou concentrada na parte técnica: criar o laboratório e ensinar como ligar ou utilizar o computador. Com o tempo, percebeu-se que era necessária também uma mudança metodológica relacionada ao uso do computador e das tecnologias digitais em sala de aula”, comenta Cristiano Galafassi, professor adjunto na Unipampa (Universidade Federal do Pampa) e coordenador executivo do projeto PIA (Piauí Inteligência Artificial), iniciativa em escala estadual voltada ao letramento em inteligência artificial na educação básica.Crédito: PixelCatchers / iStockA formação docente em IA e computação precisa ser prática e dialogar com a realidade escolar para gerar impacto verdadeiro.

O especialista argumenta que as secretarias de educação até sabem incluir as diretrizes do documento no currículo. O gargalo está na comunicação com os professores, que precisa se aproximar da realidades e das competências digitais de quem está em sala de aula.

A linguagem técnica dos documentos oficiais — embora correta, do ponto de vista de Cristiano —, nem sempre é compreendida pelo corpo docente. “Quando ele recebe esse primeiro contato repleto de conceitos técnicos, sem explicações mais acessíveis e sem tempo para assimilar aquilo que está ouvindo, isso acaba gerando não necessariamente uma resistência, mas uma preocupação sobre como ele conseguirá implementar tudo”.

O pesquisador destaca que há, entre os professores, um entendimento da importância de tratar de temas como pensamento computacional, mundo digital e cultura digital, os eixos da política. Contudo, permanece uma insegurança sobre como fazê-lo.

Camila Wasserman, mestra em educação e especialista em tecnologias digitais na educação no Instituto IA.Edu, acrescenta outro ponto crítico: a BNCC Computação ainda é vista como mais uma tarefa a ser cumprida. Atrelada à sobrecarga de trabalho, a norma acaba gerando afastamento dos educadores.
Professores entre inovação e insegurança

Nem todos os professores se sentem inseguros quanto a incluir computação em suas práticas pedagógicas. Christian Brackmann, professor no IFFAR (Instituto Federal Farroupilha) e consultor Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) destaca que sempre há aqueles docentes em busca de atualizar suas práticas. Para ele, esses profissionais reconhecem a importância de preparar os estudantes para as futuras profissões, que exigirão cada vez mais competências relacionadas à computação ou mesmo à inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, o pesquisador também afirma haver um perfil de docentes com mais receio pela falta de domínio de conceitos e ferramentas. “É importante que haja uma colaboração entre os próprios professores, para que possam se apoiar e consigam incorporar as habilidades e competências da computação aos seus planejamentos e às práticas desenvolvidas em sala de aula”, diz Christian.

Ele também considera que trazer profissionais licenciados em computação para trabalhar em parceria com o corpo docente das escolas representa um ganho direto para as redes de ensino. “O licenciado em computação possui o perfil mais adequado para contribuir diretamente com a implementação da computação na educação básica”, diz.Crédito: Goodboy Picture Company / iStockImplementar a BNCC Computação exige mais do que diretrizes: é preciso diálogo, apoio prático e materiais didáticos acessíveis

Além da colaboração entre pares, as formações continuadas precisam ser mais práticas. É o que defende Camila. “É preciso mostrar caminhos concretos, oferecer exemplos e apresentar estratégias sobre como e o que fazer em sala de aula”.

Isso só é possível quando as capacitações envolvem diálogo, como argumenta Cristiano. Do contrário, elas correm o risco de gerar pouca identificação com a realidade escolar.

“A ideia não é dizer ao professor como ele deve dar sua aula, mas oferecer planos de aula, sequências didáticas e atividades claras. Mostrar, por exemplo: ‘Para desenvolver esta habilidade, você pode realizar esta atividade.’ Ou: ‘Para trabalhar determinado objetivo, utilize esta estratégia’”, pontua.

Para ele, essa estruturação não retira a autonomia dos professores. Pelo contrário: fornece ferramentas e subsídios para que eles adaptem as propostas à sua realidade e criem novas atividades com segurança.
Interdisciplinaridade: computação integrada às disciplinas tradicionais

A BNCC Computação também prevê que as competências e habilidades descritas devem ser tratadas de maneira transversal, ou seja, integrada às disciplinas tradicionais, sem a necessidade de aulas isoladas de computação.

Além da formação de professores e das melhorias em infraestrutura das escolas, a implementação da política exige outras ferramentas de apoio, como materiais didáticos. Christian reforça que esses recursos são fundamentais para ajudar os professores a conectarem o tema que ensinam com a computação. Crédito: MagnificA BNCC Computação exige interdisciplinaridade. A integração de habilidades digitais às disciplinas tradicionais é um ponto estratégico

“A chegada desses materiais didáticos é extremamente importante, porque eles já trazem atividades articuladas com as diferentes áreas do conhecimento e oferecem propostas concretas para o trabalho em sala de aula. Além disso, contemplam atividades desplugadas, ou seja, atividades que não dependem do uso de computadores ou outros dispositivos tecnológicos”
Tem sempre a ver com computadores?

Pode parecer natural remeter a palavra computação a dispositivos eletrônicos. Contudo, a proposta da BNCC Computação busca entender o que está por trás da computação, mesmo sem o uso de tecnologia digital.

O documento traz exemplos, sobretudo na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental, em que as atividades desplugadas ganham destaque. Seja pensamento computacional, cultura digital ou mundo digital, todos podem aparecer de forma desplugada, argumenta Cristiano.

“É possível, por exemplo, trabalhar cyberbullying sem que os estudantes estejam conectados a uma rede social. Podemos discutir situações que já fazem parte do cotidiano da própria turma. Os grupos de WhatsApp entre estudantes são um bom exemplo. Mesmo nos anos iniciais do ensino fundamental, muitas crianças já possuem telefone celular e participam desses grupos. Frequentemente, por desconhecimento, acabam praticando ações de cyberbullying sem perceber os prejuízos aos colegas. Tudo isso pode ser discutido”, diz.
O caso de Santiago, no Rio Grande do Sul

Pressionadas por inúmeras exigências de gestão, a maioria das redes de ensino avança em ritmo lento na implementação da BNCC Computação. Como dito anteriormente, o atraso decorre de limitações orçamentárias, infraestrutura tecnológica inadequada e falta de programas de formação continuada para os docentes.

Em 2025, a Fundação Telefônica Vivo realizou publicou o relatório “Currículos de Computação: levantamentos e recomendações”, analisando como estavam as escolas em 2024 neste assunto. O estudo apontou que somente quatro estados brasileiros tinham conseguido inserir a computação em seus currículos e, ainda assim, de maneira limitada, pulverizada ou restrita a itinerários formativos.

Santiago, município no Rio Grande do Sul com pouco mais de 50 mil habitantes, tem desenvolvido diversas ações para colocar em dia a implementação. Um deles foi convidar Marcia Gomes, assessora pedagógica e articuladora municipal PIEC (Programa de Inovação Educação Conectada) a desenvolver uma pós-graduação em Educação Digital e Midiática.

Durante o curso, Márcia identificou identificou forças e fragilidades da rede para trazer o componente digital ao currículo. Inicialmente, a equipe planejou criar um currículo municipal próprio, mas concluiu que não havia condições para isso. “Por isso, optamos por aderir ao Referencial Curricular Gaúcho de Computação, que será o nosso ponto de partida a partir de agora”, explica. I

A implementação feita pela rede começará em agosto deste ano, com um grupo de trabalho formado por representantes de instituições e professores de diversas áreas. A primeira etapa foi avaliar a infraestrutura disponível nas 22 escolas da rede municipal (11 de educação infantil e 11 de ensino fundamental)

“Precisamos olhar para cada escola e verificar, por exemplo, se ainda possui laboratório de informática, quais recursos tecnológicos estão disponíveis e qual é a realidade de cada unidade. Somente assim conseguiremos fazer uma implementação alinhada às condições concretas da nossa rede”, diz Márcia. Esse processo ainda está em andamento.
Diagnóstico e formação docente em foco

Passo fundamental para a implementação, a secretaria aplicou um formulário interno semelhante ao Diagnóstico de Saberes Digitais, instrumento desenvolvido pelo MEC (Ministério da Educação), para avaliar as habilidades digitais dos professores.“Pelas respostas que acompanhei até o momento, percebo que muitos professores utilizam tecnologias para planejamento, porém ainda existe um desafio muito grande em incorporá-las à prática em sala de aula”, comenta a educadora.

Com base nesse diagnóstico serão estruturadas formações direcionadas, algumas já iniciadas no primeiro semestre, incluindo sessões ministradas por Cristiano Galafassi.

Também estão previstas rodas de conversa nas escolas para apresentar a BNCC Computação aos professores e fortalecer o diálogo com as pessoas que fazem parte das coordenações pedagógicas, que Márcia considera como o “braço direito” da implementação. Crédito: Jacob Wackerhausen / iStockSem infraestrutura, orçamento e formação, a BNCC Computação corre risco de ser vista como mais uma tarefa burocrática.

Uma implementação do tamanho da BNCC Computação exige monitoramento permanente. No caso de Santiago, o plano de ação do município também inclui reestruturações nos PPPs (Projeto Político-Pedagógico), que contarão com a inclusão das diretrizes da BNCC, assim como uma revisão dos regimentos escolares, principalmente aqueles relacionados ao uso intencional de tecnologias digitais.

“Seguiremos o Referencial Curricular Gaúcho, mas vamos elaborar um documento próprio para orientar os professores, explicitando como pensamos a implementação interdisciplinar e transversal da BNCC Computação e como esse referencial será aplicado no cotidiano das escolas”, afirma Márcia.
Mudando percepções sobre a BNCC Computação

Para a educadora, implementar a BNCC Computação exige primeiro quebrar um mito: o de que a disciplina depende exclusivamente de computadores e equipamentos digitais.

“Ainda existe a crença de que tudo depende de computadores, quando muitas atividades podem ser realizadas sem nenhum recurso digital. Falta estudar a BNCC Computação e compreender o que cada eixo propõe. Vejo que a principal questão é permitir-se conhecer”, destaca.

Apesar de o município não ter concluído a implementação, Márcia ressalta que essa etapa de estruturação é “a cereja do bolo”.

A pressa das redes de ensino para finalizar a implementação também passa pelo bolso. O recebimento de recursos do VAAR (Valor Anual por Aluno Resultado), complementação do Fundeb, depende do alinhamento dos currículos locais à BNCC. Agora, a regra (condicionalidade 5) exige também a inclusão do complemento à computação e das diretrizes para o uso de dispositivos digitais e educação midiática nas escolas.

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